sábado, 12 de março de 2011

Um batismo de conversão

Nem sempre ressoa com agrado os convites que pedem algum empenho ou um esforço maior. É sempre mais comum que sejam apreciados os convites que garantem o desfrute das situações prazerosas. Não é de tudo inadequado. A felicidade inclui o gosto gostoso de se fazer, viver e desfrutar. No entanto, há de se abrir espaço para escutar convites que pedem empenhos maiores com o desafio de mudanças e a descoberta de novos rumos. Esta perspectiva marca muito fortemente o horizonte do discipulado no seguimento de Jesus. A figura de João Batista é este sinal forte de convite para inserção num processo de mudança profunda. Há um gosto gostoso que também está no coração de todo processo de mudança. A conversão é também prazerosa. É um efeito que se experimenta só quando se tem coragem de aceitar o convite, e viver este percurso de mudança, com todo esforço. Não é tão simples perseverar. É considerado bom, quase sempre, o que traz efeito prazeroso imediato. Este risco faz perder chances de grandes conquistas. É uma pena não apostar no processo de conversão, como qualificação de si.

A conversão

Há uma estranheza quando se fala de conversão. São poucos os que confessam que precisam se converter. Esta estranheza revela o reverso do coração humano que vai se enchendo de soberbas e de convicções que o elegem como impassível diante da necessidade de mudança. Uma necessidade permanente para todo coração humano. Torna-se um vício o jeito de compreender a vida e suas situações gerando convicções cristalizadas a respeito da exatidão de tudo o que é próprio, do querer, de tudo o que se fala e pensa. Se há lacunas ou erros, deficiências e dificuldades, estas se encontram no outro. Nunca na própria condição. Esta ilusória convicção vai alimentando os descompassos e distonias nas diferentes situações da vida. Ainda que se verifiquem progressos e avanços significativos, que são os frutos da inteligência humana, não se consegue superar os problemas mais graves e nem mudar as feições dolorosas dos cenários que abrigam os pobres miseráveis e excluídos da sociedade. O coração humano vai se enchendo de uma presunção tal que arbitrariedade, insolência, indiferença e outros contra-valores tomam a regência de sua dinâmica. Só a aceitação do convite à conversão é que cria a possibilidade de dar ao coração humano um compasso harmonioso e adequado. A conversão, é a proclamação de João Batista, é o único remédio adequado. Sem sua experiência profunda não se alcança a novidade procurada.

Um batismo

Ser batizado é tomar um verdadeiro banho. A imagem revela a indispensável lavagem que purifica e devolve a condição adequada da dignidade que se tem. Não basta uma ou outra modificação. Há modificações que são simplesmente paliativos. É preciso mudar mais radicalmente. Um batismo de conversão sugere, pois, um banho. Um banho que inclui um mergulho enquanto inserção na realidade que limpa o que precisa ser purificado. Um mergulho do discípulo na vida do seu Mestre e Senhor. Um mergulho que o faz experimentar a novidade do coração do Mestre, iluminando o seu próprio coração. Uma iluminação que gera a força afetiva do desejo de ser diferente e mudar, assumindo um jeito de ser próprio d’Aquele que realiza a riqueza deste batismo que lava e purifica. A experiência se configura por uma radicalidade própria. Nada de paliativo. Conta a profundidade da mudança. O anúncio de João indica esta profundidade nas indicações do profeta Isaías quando aponta os efeitos da mudança a ser realizada: ‘toda montanha e colina serão rebaixadas; as passagens tortuosas ficarão retas e os caminhos acidentados serão aplainados’. A profundidade da mudança é sinal da salvação de Deus.

Verão a salvação de Deus

Nenhuma outra experiência é mais importante para cada pessoa. Importa ver a salvação de Deus. Um ver que é sua experiência. Uma experiência de salvação que não se faz senão na medida em que se aceita e se assume a conversão como dinâmica permanente da vida quotidiana. Uma dinâmica permanente que deve tocar as circunstâncias concretas da própria vida, entre os desafios humanos postos a cada dia, numa compreensão sempre nova do papel de cada pessoa. Uma conversão que revela a compreensão da presença amorosa de Deus mesmo em meio às muitas contradições que configuram os diferentes cenários da história da humanidade. E a conversão, assumida como dinâmica permanente da vida, se torna o horizonte novo para dar à história e à vida o seu rumo novo, tendo a salvação de Deus como meta principal e insubstituível. Só na medida em que se vive a conversão é que as pessoas poderão ver a salvação de Deus, a razão da vida de todos os seus filhos e filhas.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte
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