sexta-feira, 18 de maio de 2012

ERIGIR NOSSO ALTAR

Quero neste breve colóquio quero falar dos 4 altares que deveremos erigir para nossa Consagração ser total ao nosso Senhor a partir da vida de nosso pai da fé Abraão. Os quatro altares na história de Abraão. A ilustrativa vida de Abraão como modelo da vida de fé e do crescimento espiritual, pode ser vista por vários ângulos. 

Quero enfocar aqui, a marca distintiva dos “altares” em sua jornada e peregrinação espiritual, tanto do crescimento de sua visão de Deus, quanto do crescimento e formação do “caráter de Cristo” em seu homem interior. Nosso crescimento espiritual é descrito na Palavra de Deus, como um processo lento e contínuo de apropriação do caráter moral de Deus: o caráter de Cristo. O Salmo 83,8 diz: “Seu vigor aumenta à medida que avançam;”; Rm 1,17 diz: “...de fé em fé...”; II Co 3,18 diz:”...somos transformados de glória em glória...”; Jo 1,16 diz: “Porque todos nós temos recebido ... graça sobre graça.” 

Um altar é um símbolo nas escrituras de adoração e consagração. Não edificamos um altar para nós mesmos, mas para adorar a Deus, oferecer sacrifícios a Ele e invocar o seu nome. O altar é símbolo de uma vida espiritual, uma vida com Deus. Abraão foi chamado “amigo de Deus” ( Is 41,8 ), e, essa comunhão, marcada pela vida de altar, revela a essência do que é a verdadeira vida espiritual, ou seja, ela não consiste na medida de nosso conhecimento e instrução acerca das coisas de Deus, mas no quanto somos “amigos de Deus”, no quanto andamos com Deus, no quanto Deus tem-nos como seus amigos! Abraão, já em sua maturidade de vida, disse: “O Senhor, em cuja presença eu ando...” ( Gn 24,40), expressando assim, a qualidade e a própria essência de toda a vida espiritual. Freqüentemente, nós desejamos que Deus ande conosco e que Deus abençoe nossos caminhos, mas a marca da consagração é andar com Deus em seus caminhos! Quanto de verdadeiro quebrantamento, quanto do trabalho da cruz arando sobre nossas almas, quanto de disciplina espiritual necessitamos para andar com Deus! Sabemos que, o altar no Velho Testamento é uma figura da cruz no Novo Testamento, onde o verdadeiro cordeiro pascal foi imolado. O nosso Senhor Jesus Cristo e a cruz são inseparáveis. Sem a cruz Cristo não é Cristo, Ele não pode salvar-nos. A cruz, mais do que um simples objeto de tortura para alguns, ou um simples objeto de adorno para outros, define a própria natureza de Cristo! E quanto a nós? Um cristianismo sem cruz não é cristianismo de forma alguma, mas uma pobre imitação da doutrina de Cristo. Uma vida cristã sem cruz não é vida cristã de forma alguma, mas apenas um “ego” adornado com os ensinos de Cristo! Nós necessitamos da cruz tratando profundamente conosco, para que possamos ser homens e mulheres espirituais, vivendo vidas espirituais e andando com Deus. 

Durante a vida de fé de Abraão nós constatamos a edificação de quatro altares, erguidos no processo de sua jornada interior de conhecimento de Deus e amizade com Ele. Cada um destes altares aponta para um aspecto do trabalho da cruz em nossas almas, ampliando nossa consagração, ou seja, o nosso relacionamento com Deus e nossa verdadeira espiritualidade. O primeiro altar foi edificado em Siquém (Gn 12,6-7) Podemos chamá-lo de altar da revelação. Deus revelou-se ali a Abraão: “Apareceu o Senhor a Abraão”. Precisamos saber que a cruz e a revelação andam juntas. Na medida em que a cruz trata conosco, é que teremos genuína revelação de quem Deus é; de quem nós somos, do que a igreja é e, do que o mundo é. Carecemos da visão real destas quatro coisas para que vivamos uma vida que seja verdadeiramente espiritual! Por causa da cruz o apóstolo João sabia quem Deus era: “Deus é Amor”, e, “Deus é luz”(I Jo 4,8 e 1,5). Por causa da cruz, ele sabia quem ele próprio era: “...seu servo (escravo) João” (Ap 1,1), e, “Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança “(AP 1,9). Pela cruz, ele sabia o que era a igreja: “Vem, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do cordeiro”. Pela cruz, ele sabia o que era o mundo: “Não ameis o mundo”. Por outro lado, toda genuína revelação de Deus a nós implicará em cruz, ou seja, requererá que depositemos nossos corpos como sacrifício, no altar de Deus, para que aquilo que de Deus foi revelado a nós, seja “formado” em nós, e não fique apenas em nosso intelecto como informação a respeito de Deus. 


Este oferecer do nosso ser ao Senhor, diariamente, a fim de que o trabalho da cruz possa reduzir-nos a cada vez mais, fazendo Cristo aumentar em nós, isto é consagração. Lembremo-nos ainda que, embora seja a regeneração, o nascer de novo, que marca o início de nossa vida cristã, é a consagração que marca o início do nosso crescimento até a maturidade cristã! O segundo altar na história de Abraão foi edificado entre Hai e Betel (Gn 12,80 ) Podemos chamá-lo de altar da separação. Abraão deixou Ai para trás e tinha Betel diante dele. Hai significa, literalmente, "monte de ruínas" e Betel significa “Casa de Deus”. Aqui podemos dizer que é a vida de altar; a consagração, que permite que a cruz separe-nos do mundo, do amor ao mundo, de “tudo o que há no mundo” (cobiças, concupiscências e soberba). A cruz coloca o mundo para trás de nós e mantém viva e clara diante de nós a visão da Casa de Deus (Betel)! E não somente a visão de Betel, mas a cruz operando em nós habilita-nos a participar de Betel, a “sermos edificados casa espiritual, para sermos sacerdócio santo...” (I Pe 2,5 ). A cruz introduz-nos na igreja. Cristo passou pela cruz e a igreja surgiu, nós também precisamos “passar pela cruz” para que a igreja, em sua realidade prática e viva, possa surgir. Só a cruz pode separar-nos do mundo e introduzir-nos na Casa de Deus. Diante de Deus, por causa da obra da cruz de Cristo no calvário; nós já somos a Casa de Deus, a Igreja, o corpo de remidos. Mas, o lado subjetivo desta verdade, ou seja, refletir em nosso viver, conduta e relacionamentos o fato espiritual de sermos Casa de Deus, depende do trabalho da cruz em nossas vidas. Note que após este segundo altar, Abraão desce ao Egito “para aí ficar” (Gn 12,10), contrariamente à vontade de Deus. Como acontece conosco, também Abraão tinha já alguma experiência do altar, mas tinha também seu “homem natural” não profundamente tratado pelo Senhor. As suas escolhas, maneiras, idéias e caminhos eram ainda bem independentes de Deus. O Senhor tratou com ele, misericordiosamente, como vemos em Gn 12,10 – 20, e o trouxe de volta. Ele “fez as suas jornadas do Neguebe até Betel, até ao lugar onde primeiro estivera a sua tenda, entre Betel e Hai; até ao lugar do altar, que outrora tinha feito...”. Abraão voltou ao mesmo ponto de onde se desviou! Deus não pula etapas em nosso discipulado. O trabalho da cruz em nós tem dois lados: o negativo e o positivo. Do lado negativo, “despe-nos do velho homem”; do lado positivo, reveste-nos do novo homem”. Mas atente para este fato: Quando Deus trata com as coisas negativas de nossa vida diante dele, este tratar não é a essência da santificação, pois esta é essencialmente positiva ! Deus reconduz-nos do ponto de onde nos desviamos dele para, a partir dali, com a vida de altar restaurada, andarmos novamente com Ele e assim prosseguirmos compartilhando do Seu caráter em amizade com Ele. Ainda acrescentamos que, este tratar de Deus conosco em uma área específica de nossa vida (como esta da escolha de Abraão de ir ao Egito), é um tratar progressivo e cada vez mais profundo, pois veja que anos depois, Abraão novamente escolhe erradamente um caminho natural, uma maneira e idéia naturais, para ajudar a Deus a gerar Isaac, e gera Ismael! O terceiro altar erguido por Abraão, foi levantado logo após a sua separação de Lót (Gn 13,14–18). Aqui temos mais um degrau na vida consagrada de Abraão. Este faz a escolha, mas por causa da contenda entre seus pastores e os de Lot, ele pede a Lot que se aparte dele escolhendo seu próprio caminho. Lot faz uma escolha de alguém que realmente não conhecia o altar! Ele escolhe “a campina do Jordão”, uma terra boa para sua prosperidade econômica, e vai armando suas tendas até Sodoma, um lugar de julgamento, figura do mundo! Podemos chamar este terceiro altar de altar da comunhão. Ele foi edificado em Hebron que significa “comunhão, união”. A cruz habilita-nos a ter aquela incessante comunhão com Deus, aquela amizade com Deus, aquela vida de união com Deus! Não me lembro quem uma vez já disse: “O Senhor se coloca no exato lugar daquilo que Ele põe à morte em nossas vidas”. Já compreendemos isso diante do Senhor? Ele substitui para adicionar e Ele divide para multiplicar. Quem conhece o Seu coração pode confiar em suas mãos! O quarto altar na vida de Abraão foi erguido no Monte Moriá. Podemos chamá-lo de altar da adoração (Gn 22,1-14). Este altar reflete a vida madura de Abraão, o quanto ele já tinha aprendido diante do Senhor. É de aceitação geral entre os estudiosos de tipologia, que aqui Abraão até mesmo tipifica Deus, o Pai eterno. O que vemos aqui é um homem absolutamente rendido a Deus, a ponto de sacrificar seu único e amado filho, um homem que amava a Deus a ponto de confiar em Seus caminhos, um homem tão sensível à voz de Deus que pôde discernir cada instrução de Deus em cada passo do doloroso processo de sacrifício, um homem que adorou no momento em que oferecia o que tinha de mais precioso! Só a cruz nos torna verdadeiros adoradores do Pai. Sem as marcas da cruz em nossas vidas nós adoramos a nós mesmos, nós consideramos nossas vidas e tudo que temos por demais preciosos para serem oferecidos a Deus. Na verdade, neste altar, Deus coloca aquela parte mais íntima e preciosa de Abraão, o próprio coração de Abraão: Isaac. Deus assim tratou com o ser mais interior de Abraão, e tornou-o um adorador. Que nosso querido e fiel salvador faça o mesmo conosco, pela sua misericórdia e para sua própria glória e honra. 

Pe. Emílio Carlos Mancini
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