segunda-feira, 13 de junho de 2011

PERDAS E GANHOS NA ADOLESCÊNCIA

Em primeiro lugar, gostaria de fazer a distinção entre adolescência e puberdade. São termos diferentes, mas estreitamente relacionados.

Puberdade vem do latim “pubertate”, que significa pêlos. É um processo biológico que se caracteriza pelo surgimento de uma atividade hormonal que desencadeia os chamados “caracteres sexuais secundários”, isto é, pêlos, barba, seios, menstruação etc.

Adolescência é um fenômeno psicológico e social. Por ser um processo psicossocial, terá diferentes peculiaridades conforme o ambiente social, econômico e cultural em que o adolescente se desenvolve.

A palavra “adolescência” tem uma dupla origem etimológica que caracteriza muito bem esta etapa da vida. Ela vem do latim “ad” (a, para) e “olescer” (crescer), significando o “indivíduo apto a crescer”. Deriva, também, de “adolescer”, origem da palavra adoecer.
Tendo em vista esta dupla origem etimológica, podemos pensar nesta etapa da vida como: aptidão para crescer (no sentido físico e psicológico) e para adoecer (em termos de sofrimento emocional, com as transformações biológicas e mentais que acontecem nesse período da vida). A adolescência é um momento de intensa turbulência. O adolescente está vivenciando muitos lutos e perdas, entre as quais:
- a perda do corpo infantil;
- a perda da bissexualidade infantil;
- a perda da dependência dos pais.

A perda do corpo infantil

Acontece na adolescência inicial, aproximadamente entre os 9 e 14 anos. É caracterizada, basicamente, pelas transformações corporais e alterações psíquicas derivadas deste acontecimento.

O adolescente vive a perda de um corpo infantil com uma mente ainda infantil e com um  corpo que vai se tornar adulto, que ele teme, desconhece e deseja e que, provavelmente, não corresponde ao corpo que ele idealizava ter quando adulto. Eis um grande conflito que influi na aprendizagem, no humor, na organização externa e no cuidado com a higiene pessoal.
Frente a esta transformação, desejada por um lado e por outro vivida como uma ameaça e uma invasão, o adolescente busca, muitas vezes, um refúgio regressivo em seu mundo interno, dentro de si mesmo, em suas fantasias, devaneios e sonhos, acarretando isolamento e dificuldades na aprendizagem. Quem convive com ele tem a sensação de que ele “está longe”, no “mundo da lua”. Muitas vezes, só fisicamente presente.
A desorganização que se encontra em seu ambiente externo – mochila escolar, quarto, gavetas –pode refletir como ele vive internamente a mudança, a reestruturação do seu esquema corporal.

Outras situações onde o adolescente revela a sua dificuldade em lidar com “a perda do corpo infantil”  são as roupas velhas e, muitas vezes, sujas, que reluta em substituir por outras novas e limpas e, também, a resistência que alguns demostram em relação ao banho, gerando atrito com os pais. Entrar no banho significa despir-se e defrontar-se, visualmente, com as mudanças corporais, que, para ele, ainda são conflituosas.
Uma das coisas que atrapalham, neste período, é a dificuldade que tem o adulto em lidar com a transformação do filho, acelerando o processo com permissões inadequadas, fazendo com que o filho se torne adolescente antes mesmo de se tornar púbere. Por exemplo, hoje vemos crianças com 7,8 anos, freqüentando festas noturnas, com “jogos de luzes”, ou “namorando”, ou usando roupas, maquiagens e bijuterias de adolescentes ou jovens.
Os pais, para não entrarem em conflito com o filho, promovem este salto. A natureza não faz saltos. Todas as etapas são necessárias.

A perda da bissexualidade infantil

A fecundação acontece no encontro óvulo-espermatozóide, o feminino e o masculino. Portanto, somos “criação” de um homem e uma mulher. Desta forma, a criança desenvolve a bissexualidade, isto é, ela vivencia em sua personalidade aspectos masculinos e femininos, nos jogos, nas brincadeiras, etc. Com o desenvolvimento do corpo, dos caracteres sexuais secundários, com o surgimento da menstruação, nas meninas, e das primeiras ejaculações, nos meninos, a definição da sexualidade adulta se impõe à bissexualidade.

Na pré-adolescência ocorre a formação de grupos homogêneos. O grupo dos meninos (o grupo do Bolinha) e o grupo das meninas (o grupo da Luluzinha). Eles se encontram entre si para a formação da identidade masculina e feminina. Depois, aproximadamente entre 13 e 14 anos, o grupo se desfaz e o interesse se volta para o sexo oposto.

A perda da dependência dos pais

Uma característica central da adolescência é a busca da independência. É um processo doloroso tanto para ao adolescente como para os pais. Estes sentem que estão perdendo os filhos. Aqueles programas que até então toda a família fazia junto, agora deve fazer sem o filho adolescente. O interesse volta-se para o grupo. O adolescente também sofre a angústia da perda. Oscila entre uma atitude regressiva de “busca do colo” dos pais e a agressividade em relação aos mesmos.

Essa ruptura com a família é necessária para que haja a transformação de vínculos: antes infantil e dependente, para um vínculo agora mais maduro, mais independente e adulto. É a busca de definição de sua identidade. É como se ele dissesse a si próprio: “Opondo-me a meus pais, descubro-me como alguém com uma identidade própria e não dependente deles”.
A difícil prova dos pais é que, para o adolescente conseguir essa independência em relação a eles é, muitas vezes, “desvalorizá-los”. É um mecanismo de defesa por meio do qual ele sente que se afasta “sem perder muito”.

É uma etapa dura, mas necessária para a definição de sua identidade própria, para a construção de um código pessoal de valores morais, para a aquisição de vínculos de relacionamento maduros e adultos que o prepara para a escolha de uma carreira profissional, para encontrar a sua vocação e para viver relacionamentos interdependentes, isto é, com uma capacidade de dependência recíproca, de dar e receber.
No final da adolescência, há o retorno aos pais, mas numa nova relação, baseada na reciprocidade e não mais na dependência., onde, inclusive, este filho é capaz de assumir compromissos profissionais e manter-se independente, economicamente, dos pais.

O limite que educa

Para que a adolescência transcorra de uma forma saudável, é necessária a definição de limites.
Limite é uma palavra que ,às vezes, pode apresentar uma conotação negativa, como, por exemplo, “repressão”, “proibição”, “humilhação”, No entanto, limite significa a “criação de um espaço de proteção, dentro do qual a criança ou o adolescente poderá exercer sua espontaneidade e criatividade sem receio e riscos”.
A definição de limites é uma demonstração de amor e deve ser iniciada nos primeiros dias de vida da criança.

Quando os pais introduzem a palavra “não”, no momento adequado, estão introduzindo na vida do seu filho a frustração. Portanto, estabelecer limites é ensinar o filho a tolerar frustrações, a lidar com situações não somente de vitórias, mas também com a angústia, a perda, a espera.
Estabelecer limites é ensinar que temos direitos, mas também deveres; que vivemos em grupo, em sociedade e que, portanto, o outro deve ser considerado e respeitado.
Muitas vezes, o adolescente deseja fazer “apenas o que quer”. Estabelecer limites é usar da autoridade de pais para fazê-los compreender que a vida não é só prazer; existe, também, o dever. E a grande arte da vida é descobrir que o dever pode ser uma escolha de realização.

Alguns pais, às vezes, podem não pôr limites por ser mais “cômodo”. Uma vez estabelecidos os limites, precisam ter a força necessária para suportar a turbulência que os mesmos criam. Proteger os filhos é natural e louvável. É um dever dos pais. O problema é superprotegê-los. Não deixá-los crescer, fazendo por eles aquilo que eles já são capazes de fazer. Amar é dar-lhes oportunidade de crescer, de assumir responsabilidades por suas escolhas.

Quando os filhos seguem o seu próprio caminho como pessoas realizadas, felizes e maduras estão dando um “certificado de competência aos pais”, que conseguiram entender que eles são pessoas únicas, irrepetíveis e livres, que não lhes pertencem, dotados de um potencial maravilhoso, de tudo o que precisa, para vencer na vida, pois são feitos à imagem e semelhança de Deus” e eles, pais, são “companheiros de viagem” nesta maravilhosa aventura que é VIVER.

Tânia Maria Borges

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