domingo, 1 de abril de 2012

OLHARES QUE RESSUSCITAM

“A lâmpada do corpo é o olho: se teu olho for límpido, ficarás todo cheio de luz. Mas se teu olho for ruim, ficarás todo em trevas. Se, pois, a luz em ti é trevas, quão grandes serão as trevas!” (Mt 6, 19-23)
Nossa alma tem cinco janelas: as mãos, os ouvidos, o nariz, a boca e os olhos. E ainda possui uma Caixa de ferramentas (os olhos) e uma Caixa de brinquedos (o olhar). Refletiremos sobre cada uma dessas janelas e, nessa primeira reflexão, começaremos com um olhar muito especial: o olhar de Deus contemplando a criação.

E tudo começou com um jeito de olhar: Deus viu que era bom, que era tudo muito bom. Deus teve um sonho, sonhou com um jardim. Os sonhos, quando verdadeiros, nos conduzem aos pequenos paraísos da vida e, vivendo estes pequenos paraísos chegaremos com a alegria ao Paraíso definitivo.

Deus criou um jardim. Um jardim belo, de delícias. Jardim que é o destino do homem, que é o destino do universo. Parece-nos que o jardim era melhor que o céu: prova disso é que o próprio Deus passeava por ele. Terminado seu trabalho em seis dias, Deus entregou-se àquilo para que o trabalho havia sido feito: contemplar a beleza do que está diante dos olhos. Os olhos contemplaram o jardim e experimentam o êxtase da beleza! “E viu Deus que era muito bom…”: os olhos divinos brincavam com o jardim. (Gn 1,1-31).

Como estamos olhando para aquilo que Deus criou? Como é meu olhar diante das coisas que eu faço? O que eu faço nos meus dias?

Ver é muito complicado. Isso é estranho, porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física ótica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à  física.

William Blake sabia disso ao afirmar: “A árvore que o sábio vê  não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei isso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos sinto-me como Moisés, diante da sarça ardente: está ali uma epifania do Sagrado. Mas uma mulher, minha vizinha, decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa: ele sujava o chão, dava muito trabalho para sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza das flores atapetando o chão. Só viam o lixo.

A poeta Adélia Prado diz: “Deus, de vez em quando, me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. E Carlos Drummond de Andrade viu uma pedra e não viu uma pedra: a pedra que ele viu virou poema.

Há  muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é  bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro/Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Necessita de aprendizado. Nietzsche sabia disso e afirmou que “a primeira tarefa da educação era ensinar a ver”.

Há  uma passagem no Novo Testamento, verdadeiro poema, que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus Ressuscitado. Dirigiam-se a Emaús. Eles, porém, não o reconheciam até que um gesto fé-los subitamente reconhecerem-no: ao partir do pão “os seus olhos se abriram” (Lc 23, 13-35). Vinícius de Moraes vive experiência semelhante no “Operário em Construção”:  “De forma que, certo dia, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção”.

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na Caixa de Ferramentas são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não vivem o prazer de ver… Mas quando os olhos estão na Caixa dos Brinquedos eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na Caixa de Ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na Caixa dos Brinquedos são os olhos das crianças. Para ter olhos brincalhões é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse ter aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo, fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas…”

A diferença está no olhar. Não são olhos bonitos que nos encantam, mas o que realmente nos cativa são os olhares. Olhares são a extrema fineza dos olhos. Olhares suaves, fixos, acolhedores, belos e iluminados. Olhares que têm o poder de ressuscitar, devolver a luz para quem, tantas vezes, esqueceu o quanto a vida vale a pena ser vivida.

Nascemos para aprender a olhar de um jeito certo:


Quando criança, pedimos toda a atenção, o chorar da criança é por não ter ninguém olhando por ela. Quantos medos surgem por não se ter “olhares à sua volta”.

Quando adolescentes, somos tentados a querer todos os olhares e atenção, caso contrário nos revoltamos com o mundo e nos sentimos os mais abandonados e mal-entendidos que possam existir.

O jovem é aquele que volta seu olhar para o mundo das possibilidades. O sonhar do jovem é seu mais precioso paraíso. Quer realizar, transformar, construir, quer que os olhares possam se alimentar de suas ousadias.

O adulto quer ser importante aos olhos de alguém especial. Não quer fazer parte apenas da multidão que passa, ele quer ser destacado por um olhar especial.

Os velhos, com uma alegria nostálgica, lembram de tudo o que viram, e em tão bela idade sabem ver o que lhes acontece sem nenhuma pressa. Aprenderão a saborear a beleza e o sentido da vida. Isso é algo que ninguém rouba. É propriedade de quem aprende a amar e a olhar de um jeito certo. Jeito que nos faz felizes e realizados.

Olhares simples nos devolvem o sentido da vida. Olhares encharcados de acolhida nos retiram da indiferença de, por medo da vida,  muitas vezes insistir em ficar com olhos vendados, mesmos estando eles, os olhos, abertos. Olhos abertos, mas olhares escondidos.

O jeito de Jesus escolher os Apóstolos foi o olhar: sentiram-se amados e o seguiram, para sempre. Nosso jeito de olhar somente deveria ser um: o olhar maravilhado, iluminado pelo amor.


Éderson Iarochevski
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