quarta-feira, 1 de junho de 2011

Não é possível que, com essa, Deus não faça nada!

Quantas vezes você e eu dissemos algo como: “Mas que coisa horrível! Não é possível que, com essa, Deus não faça nada!” Após cada notícia de terremoto, enchente, tsunami, escândalos de pedofilia, assassinato em massa, tráfico de crianças, sites ensinando o passo a passo da pedofilia, corrupções políticas deslavadas, populações dizimadas pela fome, milhões de abortos praticados impunemente a cada dia, pessoas inocentes incendiadas por brincadeira, surgem perguntas perturbadoras: “Por que Deus não faz alguma coisa para acabar com isso?”, “Onde está Deus que não vê isso?”
Deus vê, sim. Deus “chora” e sofre como Jesus chorou e sofreu pela dureza de coração de Jerusalém. Sua dor é imensa. Ele não é indiferente à nossa condição, pois, em Jesus, tem um coração humano, com os mesmos bons sentimentos que o nosso, só que muito mais pungentes, pois ele é Deus, puríssimo, perfeitíssimo. O pecado não o tocou, não o recobriu com sua couraça de pedra dura.
“Se ele sofre, por que não faz nada?” A questão é que ele espera. Deus espera. Há uma frase preciosa do Pe. Libânio: A esperança é a fé no amor. Assim Deus espera. Ele nos ama, nos dá seu amor para que tenhamos forças para amar com o amor dele. Conhece seu plano de amor para cada um de nós e confia na correspondência ao amor com amor. Crê em nossa conversão para o amor, para ele. Por isso, espera.
De nossa parte, também nós cremos no amor de Deus. Também cremos que ele pode fazer qualquer coisa por amor a nós. Também esperamos a manifestação do seu amor diante daquilo que nos faz sofrer, questiona e escandaliza.
Essa esperança que vem da fé no amor é chamada de “paciência histórica”. Deus espera a ação do amor humano, no qual crê. Nós esperamos a ação do amor de Deus, porque cremos nele. Se Deus não cresse no amor humano, dado gratuitamente por ele, não creria em sua própria ação redentora! Se nós não crêssemos no amor de Deus por nós e por todos os homens, não esperaríamos que “ele fizesse alguma coisa”.
A questão é que nós temos pressa. Não agüentamos mais conviver com tanta sujeira, tantas catástrofes, tanta bandalhice. Deus, porém, tem mais pressa do que nós. Ele mesmo disse pela boca de Jesus: “Vim trazer fogo à terra e o quanto gostaria que já tivesse se espalhado, que fosse mantido aceso”. Como se vê, Deus também tem pressa. Ocorre que seu amor é maior que sua pressa e ele, pacientemente, espera. Espera que tenhamos reações de amor e não de ódio. De humilde paciência ao invés de arrogante revolta. Espera que ajamos como nos ensina o Evangelho. Espera porque não quer perder nenhum de nós. Um sequer!
Nós também esperamos. Algumas vezes, porque pensamos não ter jeito mesmo. Balançamos a cabeça, dizemos alguma coisa entre os dentes e continuamos nossa vida. Outras vezes, procuramos fazer algo, pois entendemos que a responsabilidade é da humanidade inteira. Por fim, esperamos porque cremos no amor de Deus e confiamos que ele sabe melhor que nós o que fazer.
No ano de 2010, o povo chileno deu-nos dois impressionantes testemunhos de esperança. O primeiro, no terremoto avassalador do início do ano. O outro, já no segundo semestre, com os mineiros presos a centenas de metros de profundidade. Em que esperaram as vítimas? Por que esperaram? Porque acreditavam no amor. No amor de seus irmãos, sempre solidários com os terremotos que sofrem a cada vinte anos. Criam no amor que os buscaria entre os escombros ou no fundo da mina. A fé no amor resultou em esperança e amor, esperança e fé resultaram na salvação – dos escombros do terremoto e da imensa e impenetrável rocha sobre o exíguo refúgio.
Assim, também, para nós. A fé no amor de Deus gera a esperança e amor. Esperança e fé resultam na salvação da morte eterna. A salvação, essa, só o Amor feito homem nos pode dar.

Emmir Nogueira
 Co-Fundadora da Comunidade Shalom
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