sábado, 4 de junho de 2011

Quem quebrou a corrente?



De volta de uma viagem de quinze dias que encerra o ciclo de missões para pregação deste primeiro semestre, deparo-me, em lanche com D. Odilo Scherer, com a resposta para muitas noites de inquietação e angústia ante a constatação da destruição moral da juventude que temos tentado evangelizar e formar: alguém quebrou a corrente!
Não há como não sofrer imensa dor ao ver os jovens com padrões morais cada vez mais duvidosos, que vão muito além do tão batido “ficar” ou “pegar”, mas mergulham na acolhida das idéias aterradoramente pagãs que acolhem como “adequadas” ou como “indicadoras de felicidade”. Esse amplo universo de pseudo modernidade abraça o desejo do possuir cada vez mais e a todo custo, a cultura gay, a evidente e angustiante confusão da identidade sexual, o hedonismo, a indiferença vivencial para com o sofrimento alheio, as questões de bioética, a rejeição do compromisso que o amor, necessariamente, exige.
O sofrimento, quando autêntico, gera sempre duas perguntas: “O que causou isso?” e “O que preciso fazer?” Veja bem: a primeira pergunta não tem nenhum cunho científico ou redução do tipo encontrou-a-causa-encontrou-a-solução! Longe disso! Ela nasce da dor da consciência cristã, responsável pelos que gerou.
Quanto à segunda pergunta, distancia-se, em muito, da questão filosófica do que “posso” ou “devo” fazer. O verbo “preciso” traz um peso vivencial, existencial, responsável, angustiante, comprometedor.
Às minhas noites insones e meus questionamentos diante do Santíssimo, o Espírito veio responder através de D. Odilo: o elo da corrente da transmissão da fé foi quebrado! Sim! O grande problema dos “netos de John Lennon” não atingiu somente a responsabilidade dos pais no sentido de educarem seus filhos a nível pessoal e social. Atingiu-os também, dolorosamente, a nível de transmissão da fé.
A tragédia não se restringe a deixar os filhos demolirem o ambiente e a paciência dos circuncidantes sem nenhuma intervenção paterna. Não se resume a deixar os filhos abandonados a seu bel prazer, eximindo-se da responsabilidade de impor-lhes limites. A hecatombe reduziu ao pó a transmissão da fé e dos valores cristãos, a vivência das virtudes cristãs e da caridade, o respeito à Igreja e ao sagrado.
Nós, os pais desta geração sofredora que parece navegar em águas livres, não cuidamos de lhes transmitir a fé e os jogamos em um pântano de incredulidade, impiedade e egoísmo. Quebramos a corrente da transmissão da fé!
Eis a causa. As conseqüências são evidentes. Nem será preciso sair por aí pregando, como eu fiz. Basta olhar, com os olhos de Cristo, ao seu redor. Perdemos uma geração no que diz respeito à fé, às virtudes cristãs, à piedade, ao Evangelho! O coração grita: “O que preciso fazer?” A mente rebate: “Como fazer?”
Sim, como voltar o tempo? Como resgatar jovens que, quando criança, foram vítimas de tanta ausência, tanto descaso, tantas violências e abusos sexuais, tanto desamor, tanta exposição ao paganismo, tanto incentivo de adesão ao materialismo? Como repor o que lhes faltou? Como atraí-los e reconduzi-los? Ainda é possível conferir-lhes uma identidade sexual definida? Ainda é possível conduzi-los à virtude? Ainda temos como levá-los à piedade, ao respeito pelo sagrado, à adesão ao Evangelho? Ainda teremos como conduzi-los aos sacramentos? Como refazer o elo perdido?
A mente não tem resposta. O coração, sim! Também a Igreja. É preciso reconstruir o elo em duas ações necessariamente conjuntas: evangelizar os jovens através da experiência com Jesus Vivo, levá-los a ver Jesus, a tocá-lO pela Palavra, a comer com Ele pelos sacramentos, a caminhar com Ele pelo discipulado, a conversar com Ele pela oração, a comprometer-se com Ele pelo testemunho. Isso tem de ser agora e tem de ser de todas as formas possíveis: nos shoppings, nas praças de alimentação, nas universidades, nas escolas, nos meios de comunicação, com todos os meios e métodos que a criatividade do Espírito nos fornecer, sem medo, sem retardo, nisto sim, sem limites.
Em paralelo, é preciso fazer os pais, especialmente os pais mais jovens, aqueles que ainda se enfiam no trabalho e se esquecem dos filhos, aqueles que foram educados como filhos de John Lennon, compreenderem conscientemente o que seus pais sabiam por intuição ou tradição: é preciso transmitir a fé de geração em geração. É preciso aceitar corajosamente ser elo na corrente da transmissão da fé. Mais que essencial para a saúde integral dos filhos, para sua felicidade verdadeira, para sua liberdade profunda, é essencial para sua salvação que recebam a fé das mãos de seus pais, como o legado mais precioso que possam lhes deixar. Deve ficar bem claro: não é questão de opção, nem de bem-estar, nem mesmo de benemerência. É mais que uma questão de vida ou morte. É questão de salvação, de vida e felicidade eternas.
Quanto a você: o que é preciso você fazer? 

Comunidade Shalom
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