quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Ser pobre é ser feliz!

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“Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.”
   
“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus.”

Trata-se de um dos textos mais famosos e, por isso mesmo, mais estudado ao longo das Sagradas Escrituras, por biblistas e exegetas. Faz parte do conjunto do insigne “Sermão da Montanha” mateano ou do “Sermão da Planície” lucano. Então, trata-se de um texto da tradição da “teoria das duas fontes”, isto é, de Mateus e de Lucas.

Conforme a tradução feita acima, da Bíblia de Jerusalém, sabemos que Lucas é mais rico em sentenças avulsas. Neste sentido, pode-se afirmar que a riqueza – contraste da pobreza e dos pobres – é substituição da confiança que se deve depositar em Deus. Por isso mesmo Mateus usa o termo “Reino dos Céus”, enquanto Lucas usa “Reino de Deus”.
          
Mateus trata de um caminho de fé, de seguimento; daí entendermos que a Lei não é Deus, mas de Deus. O seu objetivo ( = plenitude) é o Amor (Jesus Cristo). Com isso, ele sempre associa Amor à Lei, mas distingue uma coisa da outra. Com isso, dize-se que as bem-aventuranças são experiências vividas e não normas dadas. Elas são, como que um “resumo do Evangelho”, isto é, são situadas concretamente na vida de Jesus, de modo encarnado.

A pobreza aqui enfatizada quer implicar no uso dos bens. Ela está em reconhecer a grandeza de Jesus e a nossa pequenez. Aqui, ela está no seu sentido positivo: desapegada e livre; de tal sorte que dela podemos inferir que quem é possuidor não é livre. Na verdade, é-se possuído pelas coisas. Quando se é possuído se é livre para com os bens. E é disto que o texto fala.

E ser pobre é ser feliz. Este é o estado concreto de quem é independente. Independente de si e das coisas; mas que necessita tão somente de Deus mesmo. E isto se relaciona perfeitamente com a forma de escrita que se encontra em Mateus: um modo includente, assim como a sua comunidade. E isto se liga muito bem com Lucas, pois a sua preocupação é mostrar que Jesus é Deus desde o início.

São estes “felizes”, estes “bem-aventurados” que estão aptos para receberem o Reino. São eles os sinais perfeitos de contradição, pois, como ser “bem-aventurado” quando não se tem coisa alguma? Ora, só quem está na dependência de algo maior que o próprio ser é que consegue dizer-se beato, feliz, bem-aventurado. E isto explica a causa de Jesus dizer o motivo de serem “bem-aventurados”, usando os “porquês”: é-se pobre por o Reino ser seu.

E isto faz e mostra todo o sentido desta bem-aventurança ser a primeira: para se chegar ao Reino apresentado por Jesus, é necessário ser pobre. Pobre não no sentido hodierno – mas também neste – ser pobre, no fundo, é ser como Jesus: é viver do necessário; grato ao Pai pelo que tem, quando tem e se tem. Em tudo sabe ter não somente um coração de pobre, mas é-se pobre de fato, no sentido de despojado de si; tão despojado ao ponto de poder dar do que não tem, mas do que é: a si mesmo. Isto é o máximo da Lei: é o “Amar ao próximo como a si mesmo” sem medidas nem reservas. É ser concretamente, um verdadeiro discípulo de Jesus; é não dar coisas, mas dar a si mesmo, para nos alimentar, pois somos sempre lentos para pedir; mas Ele, que nos ama tanto, já o faz sempre e contando de antemão com a nossa infidelidade.

Porém, se Ele não faz isso, se contradiz e deixa de ser Deus, pois sua essência é dar de si, é amar, é ser Amor-doação. Daí o texto dirigir-se aos discípulos, primeiramente, e falar de uma pobreza de espírito, mas que é externada no concreto-material, do qual Ele mesmo é o exemplo.

“Em espírito” significa a plenitude do crescimento na identidade do que se busca como liberdade, como existência. É preciso pois, entendermos a palavra ‘espírito’ dentro do movimento de realização no aperfeiçoamento da aprendizagem para se tornar um “mestre artesão”. Quando um artista não é um artista por acaso, esporádica e aparentemente, mas sim total, completa e comprovadamente, costumamos dizer: ele é bom mesmo! O sentido de “mesmo” é mais ou menos o que quer dizer a expressão “em espírito”.

Enquanto Mateus fala de um modo “genérico”, sem direcionar a sua fala, Lucas se volta diretamente para aqueles que rodeavam a Jesus e aponta que são estes que estão com Ele que são os “bem-aventurados”. Mas o modo como Mateus escreve, salienta, por sua inclusão, justamente que o Reino dos Céus é para todos, enquanto Lucas enfatiza que o Reino de Deus é, primeiramente, para os que estão próximos de e a Jesus.

E Jesus é a Salvação, a começar pelo próprio nome – que faz toda a diferença para Mateus – que indica a sua função e esta é a prática das boas obras, mesmo sem saber que são [estão sendo] feitas. Mas este texto, que faz parte da assim chamada “alma do Evangelho”, se refere aos pobres; mas, quem é O Pobre por excelência, senão o próprio Jesus?!

“Pobreza” não indica um estado privativo de ser, nem um estado social, nem uma virtude-ornato de uma piedosa santidade, mas sim o vigor do ser, o qual busca-se de corpo e alma, como a riqueza suprema da nossa existência: é uma meta de perfeição. Perfeição é a ação que nos leva a sermos per-feitos, isto é, o que se faz, que se consumou “per”, através de um longo processo de árduo trabalho de conquista e está no ponto, no auge da sua identidade.

Essa busca não é para se mostrar, não é para se sentir melhor e mais autêntico, não é vivência de satisfação, não é nenhuma das realizações que cheiram a granfinagem ou burguesia espiritual, por mais sublimes e zelosas que elas sejam. É antes uma luta selvagem, assumida com gosto, uma luta “terra a terra”, a dentes e unhas, uma luta real e perigosa, na qual se arrisca a ter realidades-mestres que nos quebram o queixo. Só quem tem amor a essa maneira de lutar é bom mesmo na pobreza, isto é, é tido pelo espírito da pobreza, que é o próprio Jesus Cristo: pobre, humilde e crucificado. (Cf. Fl 2,6-8).

E é a esta busca que somos chamados diariamente, cada vez de novo, sempre novo, nas pequenas coisas, nas mais ordinárias possíveis, onde justamente aí o Reino dos Céus de Deus se nos abrirá; não somente em um sentido escatológico, mas já aqui e agora, no hoje da nossa vida. T

frei Cleiton Robson, OFMConv.
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