quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As características da virtude da coragem

Uns são corajosos por ignorância ou por experiência, como os soldados, e essa coragem é antes o resultado do exercício de uma arte do que uma virtude moral. Outros são corajosos por paixão (temor de ameaças, de desonra, por tristeza, ira), e a virtude moral não obra por paixão. É preciso a coragem da alma para opor resistência a tais dificuldades (as que se opõem à obediência à reta razão).
Cinco modos pelos quais podemos nos assemelhar aos corajosos, como que praticando atos de coragem, sem ter essa virtude:
1) Praticar atos difíceis como se não o fossem, por ignorância, quando não percebemos a grandeza do perigo;

2) Quando temos fundadas esperanças de vencer o perigo, porque por experiência sabemos que dele muitas vezes escapamos;

3) Por certa ciência e arte. Digo dos soldados, que pela perícia que têm no manejo das armas, e pelo exercício, não consideram graves os perigos das guerras, pois ninguém teme fazer o que sabe ter aprendido;

4) Por impulso ou paixão;

5) Por escolha de algum bem temporal a adquirir (honra, prazer ou ganho), ou para evitar alguma desvantagem.

É próprio da virtude fazer-nos agir com firmeza e constância. A coragem consiste em afrontar deliberadamente os perigos e padecer os trabalhos. Virtude significa a perfeição última de uma potência. Coragem, firmeza de alma pronta a enfrentar qualquer obstáculo.
É próprio da virtude da coragem remover os obstáculos que impedem a vontade de seguir os ditames da razão. A coragem versa sobre o temor e a audácia, coibindo aquele e moderando esta.
É próprio da virtude da coragem fortificar-nos a vontade, para não abandonarmos o bem da razão por temor de um mal do corpo. Quem tem firmeza contra o maior dos males há de tê-la contra os menores.
É próprio da virtude tomar em consideração o que é extremo. Não se reputa corajoso um homem só por tolerar quaisquer adversidades; mas só os que sabem tolerar os males máximos. Pois nos outros casos ele será corajoso relativamente.
O temor nasce do amor. Qualquer virtude que modera o amor de certos bens há de também, por força, moderar o temor dos males. Amar a nossa própria vida nos é natural. Donde a necessidade de uma virtude especial, moderadora do temor da morte.
Sendo dois os atos próprios da virtude ─ suportar e atacar ─ ela recorre à ira, não para o ato de suportar, mas para o de atacar.

O ato principal da coragem é suportar, isto é, persistir inalterado nos perigos, mais do que atacar. É mais difícil reprimir o temor do que moderar a audácia. A coragem é o amor que tudo sofre facilmente por causa de Deus.
É próprio do homem forte não dissimular o perigo que o ameaça, mas encará-lo face a face e examiná-lo do alto do seu pensamento, como de um lugar elevado. O corajoso é um homem de confiante esperança. Nos perigos repentinos é que principalmente se manifesta o hábito da coragem.

O furor ajuda os fortes. No virtuoso, a ira e as outras paixões são moderadas pela razão.
Partes da coragem: magnificência; confiança; paciência; perseverança.
Só os que são ávidos de questões são capazes de soluções. A fides/esperança se alimenta da fides/certeza. A verdade objetiva sujeita os homens apenas a ela, mas a verdade subjetiva cria o reino da tirania dos que ditam aos demais os critérios dessa verdade.
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

por Santo Tomás de Aquino
Extratos da “Suma Teológica”, de Sto. Tomás de Aquino ─ II,2ae,123-135
Fonte: Portal Shalom
Postar um comentário