quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

1ª Parte: A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA: RENOVAÇÃO PROFÉTICA OU NEOCONSERVADORISMO?

Por René Laurentin
O fato de um artigo sobre a Renovação carismática católica figurar num fascículo sobre o Neoconservadorismo corre o risco de falsear, desde o começo, tudo que se dirá, pelo menos nos meios e países em que o conservadorismo tem uma conotação pejorativa. Urge, pois exorcizar, antes de mais nada, o que este termo possa conter de mítico e de passional.
Conservar é uma função essencial à vida. A ecologia (cujo prestigio passou à frente do prestígio do progresso, desde o começo da década de 70) é conservação da natureza. A fé cristã, transmissão fiel de uma revelação consumada, no essencial, uma vez por todas, também depende de uma conservação vital e de uma ecologia espiritual. Considerar toda preocupação de conservação como conservadorismo, atraso ou desvio é sinal de um maniqueísmo ingênuo. Se o verdadeiro problema consiste nisto: Que devemos conservar? Como conservar sem esclerosar o que é essencial a vida? Como aliar esta conservação ao progresso e à evolução inerente à historicidade humana? O estudo da renovação carismática ilustra de modo bem atual este problema.
1. A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA – UMA INOVAÇÃO
A renovação carismática é antes de tudo fruto de uma inovação audaciosa. Na verdade este movimento católico deve sua inspiração inicial (o batismo no Espírito e os carismas) a meios protestantes, mais especialmente a este movimento entusiasta – de formas as vezes sectárias – que é o Pentecostalismo.
Foi em janeiro de 1967, em Pittsburgo. Os quatro primeiros católicos “batizados no Espírito” não eram considerados conservadores nem formalistas. Homens à procura, haviam vibrado com a onda critica levantada nos Estados Unidos por João XXIII. Haviam tirado do Vaticano II a conclusão de que deviam “engajar-se”. Mas seus esforços de ação social, mesmo política não haviam ficado, mas diluído a sua fé. Sentiam a necessidade de encontrar uma fonte (Jo 7.37-39; cf. 4,14). Foi então que se propuseram a ler o livro de David Wilkerson. Este pastor havia encontrado na efusão do Espírito um impulso profundo que o arrancou de uma vida paroquial bem instalada, para um apostolado perigoso e frutuoso entre o bando de gatunos de Nova Iorque. Esses quatro católicos não ousariam pedir sua iniciação a pentecostalistas. Encontraram-na entre os episcopalistas carismáticos, bem próximos do catolicismo, mas que haviam acolhido o aclimato a experiência “pentecostalista”.  Surgiu, assim, em 20 de janeiro de 1967, pela oração e pela imposição das mãos sobre os dois primeiros fundadores, o que foi chamado desde o início  Pentecostalismo católico: uma conversão, uma libertação de forças vivas, um repentino florescimento de carismas esquecidos na Igreja católica, a começar pelo carisma de falar em línguas, característicos do Pentecostalismo, como também o profetismo (no sentido de palavras inspiradas, ditas em nome de Deus), o dom das curas, etc.
Tudo isto era inovação audaciosa e sentido como tal. Quando se manifestaram em Notre Dame (Indiana, EUA) as primeiras glossolalias, em fevereiro de 1967, um velho missionário, conhecedor do proselitismo de certos grupos pentecostalistas anti-católicos, perguntou sentenciosamente:
– Quando ireis abandonar a Igreja?
Os que foram atingidos por este arrebatamento não experimentaram nenhuma desafeição, pelo contrário. Mas a audácia deste ecumenismo e deste empréstimo, a novidade insólita, e provocante do batismo no Espírito (seria um outro batismo?), os carismas (principalmente o falar em línguas e essas palavras dirigidas por um simples fiel em nome de Deus a toda a assembléia), a livre improvisação da oração, impressionavam e até chocavam.
Todos os movimentos do Espírito surpreendem e escandalizam desde os tempos dos Atos dos Apóstolos (2,13; 26,24), em que a Igreja de Pentecostes foi correntemente designada Heiresis, com a dupla nuance de heresia e seita (At 24,14; 28,22). Parecia aberrante ver simples leigos exercerem o carisma de “libertação”, como se usurpassem as funções dos exorcistas. De modo mais geral se manifestavam como subversivas a liderança dos leigos neste movimento e a autoridade de seus carismas. Parecia aberrante que um bispo, ou mesmo cardeal, aderindo do interior a este movimento, deixasse que mulheres e não-católicos lhe impusessem as mãos. Os “pentecostalistas católicos” respondiam em vão que este gesto, polivalente desde a origem, não tinha alcance e nem pretensão sacramental; que era uma inovação dirigida à serena liberdade do Espírito a fim de viver a graça do batismo conferida uma vez por todas. Os reflexos católicos diante destas novidades insólitas se assemelhavam aos da galinha que chocou patinhos.
Aos episcopado americano – país em que nasceu este movimento – coube a honra de discernir que havia nele, apesar das preensões (e de ambigüidades ou excessos inevitáveis), um movimento do “Espírito” autenticamente católico, no sentido em que esta palavra significa a universalidade e não um particularismo. Mas, dez anos antes esse movimento teria sido rejeitado, sem hesitação nem apelo.
Continua...

Na segunda parte de "A Renovação Carismática: Renovação Profética ou Neoconservadorismo?" iremos ver os fatores internos de Tradição.
Aguarde.
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