sexta-feira, 5 de agosto de 2011

 
Frei Mário Sérgio Souza

Eu nunca vi uma afirmação para assustar tanto algumas pessoas como essa: sim, sou padre! Meu Deus, tão novo, tão simpático, tão inteligente, tão normal, tão sem jeito, tão isso, tão aquilo. Isso quando não ressoa um estridente – “que desperdício!”. O que me desperta a atenção e acho curioso, é que o mundo caminha para uma diversidade em tantos campos, e as pessoas ainda se assustam com as opções alheias.

O ser padre ainda se caracteriza uma denúncia de algo? Será? Fico me perguntando sempre sobre isso. O que o fato de ser padre causa espanto? Será que as pessoas acham a igreja uma instituição ultrapassada nos valores que defendem? Então, como um jovem quer se filiar a ela? Será que é por causa do celibato, num mundo marcadamente erotizado e banalizador da sexualidade em suas amplas dimensões? Será que o jovem que assume o sacerdócio é um homem em rota de fuga, seja do mundo, de uma opção sexual, de uma busca de comodismo dentro das estruturas eclesiásticas? Será que pensam que o padre só quer explorar da igreja, estudar e depois cair fora e viver outras realidades? Como pode alguém querer ser padre em meio a tantos

escândalos envolvendo sacerdotes pelo mundo afora?

Mas, o sacerdócio e sua beleza, sua riqueza, sua profundidade, cabem nessas perguntas? Visões reducionistas sobre questões sérias mostram quão vazios vivem os nossos contemporâneos. Sobretudo, quando reduzem as opções dos outros às rasuras de seus pensamentos e teorias. Como o mundo secularizado quer apagar qualquer fagulha do sagrado, e o sacerdote representa esse sagrado encarnado em sua consagração, pronto, querem acabar com a figura do padre, pensando, assim, acabarem com o próprio Deus. Mas, o sacerdócio sobrevive bravamente a essas investidas.

O que me desafia, quando penso no sacerdócio, é a necessidade e a demanda, as perguntas e os desafios, as exigências e as cobranças do povo em relação ao nosso ministério. Hoje, o povo quer ir atrás do padre que lhe agrada, que lhe fala ao coração, que lhe desperta emoções e sensações, que tem uma palavra inteligente para oferecer, que seja dinâmico, culto e respondedor de todas as inquietações das problemáticas atuais. É difícil encontrar um homem que se enquadre em todas essas exigências. Mesmo assim, o sacerdócio ainda sobrevive.

A saída é nunca tirar os olhos de Jesus. Fixar o olhar Nele, em Suas palavras, em Seus gestos, em Suas atitudes. O padre precisa pedir, todo dia, a graça de ter “os mesmos sentimentos do Cristo Jesus” (Fl 2,5). Pedir a graça de nunca tirar os olhos das ovelhas do rebanho que o Senhor lhes confiou, porque a missão do Cristo é a mesma missão do sacerdote: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, a curar os quebrantados de coração e proclamar a liberdade aos cativos e dar-lhes o óleo da alegria em lugar do luto”. (Is 61, 1- 3). Ser padre é ter uma preocupação profunda e sincera pela pessoa humana. Compreender suas dores, curar suas feridas, dar o bálsamo da paz interior. Ser padre é atualizar, pela força e o caráter do sacramento, a vida de Jesus no mundo que se chama hoje.

Eu sei que o mundo respeita um padre inteligente – afinal, saber é poder, já dizia Bacon; também sei que o mundo admira a coragem de um jovem de assumir esse estado de vida, embora não queira para si nem para os seus; sei que muitos outros acham que é uma perda de tempo tal vocação; sei de outros que nem querem saber de padres; mas, sobretudo, sei do bem que um homem que se consagra ao sacerdócio ministerial faz à humanidade. O padre é o homem do abraço acolhedor de Deus, do sorriso encorajador de Deus, da palavra certa na hora do jeito certo; é o homem da última porta que muitos batem nos desesperos e crises do viver e saem dali experimentando a misericórdia do abraço do Pai. O padre, por fim, nas palavras de Bento XVI, é o amor do Coração de Jesus. Por isso, sou padre, e daí?
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