domingo, 17 de julho de 2011

Um vinho diferente - O amor sempre renova e transforma as coisas e a vida


Karasuki e Mikaia casaram-se já com uma boa idade. Com grande surpresa e alegria tiveram um filho. Criaram-no com todo o amor e as atenções possíveis e, apesar de serem muito pobres, conseguiram colocá-lo na escola da vila para que crescesse, também, em sabedoria. O rapaz, quando voltou para casa, tinha o único desejo de desobrigar-se com os seus pais.
– O que é que os senhores gostariam mesmo que eu fizesse para mostrar-lhes a minha gratidão? – perguntou o jovem.
 Nada vale mais do que a sua presença aqui conosco – responderam os pais – mas se quiser mesmo nos dar um presente, veja se consegue arrumar um pouco de vinho para nós. Gostamos muito de vinho e faz muito tempo que não o saboreamos mais.
O jovem não tinha um tostão. Um dia, porém, juntando lenha na mata, encontro uma fonte. Bebeu da água e achou que tinha um gosto extraordinário, parecia vinho. Encheu uma garrafa e a levou para os pais.
– Eis aqui o meu presente; aproveitem bem - disse o filho. Os pais experimentaram a água e, apesar de não perceber nenhum gosto além do da água, mostraram alegria e agradeceram muito ao filho pelo presente.
– Na próxima semana, vou trazer mais - disse-lhes o jovem. E assim ele fez por muitas semanas. Os pais toparam a brincadeira: bebiam a água com grande entusiasmo e ficavam felizes de verem a alegria também no rosto do filho. Aconteceu, então, uma coisa: as doenças dos pais desapareceram e as suas rugas se aplainaram, como se aquela água fosse milagrosa. E na realidade era assim, porque nada faz os pais mais felizes do que receber um presente dos seus filhos, qualquer que seja o valor deste dom.
Mais uma pequena história para entender melhor as palavras de Jesus do evangelho deste domingo. Ele não disputa o amor entre pais e filhos. Somente quer nos ensinar a transformá-lo em amor verdadeiro, seguindo o seu exemplo.
Devemos reconhecer que muitas coisas poderiam melhorar em nossas famílias. Não falo dos pais que abandonam ou se descuidam dos filhos; e também dos filhos que não ligam mais para os pais quando adoecem ou ficam idosos. Nesses casos, o que falta mesmo é o amor. Falo das famílias boas, onde aparentemente tudo se faz para o bem, mas onde aos poucos pode entrar a mentalidade interesseira, que caracteriza o nosso tempo. Com efeito, tem pais que projetam a si mesmo nos filhos e querem que estes cheguem lá aonde eles não chegaram, ou alcancem metas que estão acima das suas forças ou da sua idade. Criança tem direito de brincar e, crescendo, tem direito também de escolher. Claro que deve ser ajudada e educada, mas as imposições ou as chantagens afetivas – se me quer bem faça o que eu quero – antes ou depois, são desmascaradas e geram revolta ou insatisfação.
Existem também filhos que somente cobram dos seus pais como se eles tivessem a obrigação de lhes dar tudo de mão beijada. Obviamente essas crianças e adolescentes olham sempre para os colegas mais abastecidos e só enxergam o que lhes falta: celular, roupa de marca, tênis, notebook, raramente conseguem ver o esforço dos pais para lhes dar coisas mais importantes como a casa, a comida, a saúde e os estudos, o amor e… A fé, para quem é feliz de acreditar em Deus . Acontece que alguns jovens acham mesmo que os pais têm somente obrigações com eles, assim, pouco ou nada agradecem. A casa da família vira um hotel e o quarto deles uma fortaleza impenetrável, cheia de segredos e de confusão.
É fácil entender que o amor que Jesus nos ensina é gratidão, partilha, entrosamento e unidade. Bens preciosos para uma vida agradável e construtiva. Ser dignos de Jesus significa segui-lo, bem de perto, assumindo para valer todos os compromissos do discípulo. É nas nossas famílias que aprendemos a amar com sinceridade e simplicidade. Todo lar deveria ser uma escola de amor, para que esse amor crescesse com o tempo e se abrisse a mais amigos e irmãos, aos pobres e aos sofredores. Se a família não cumpre esta missão pode distorcer ou desviar os jovens do seguimento de Jesus e do amor ao próximo. Seus filhos serão famosos, terão sucesso, ficarão ricos, mas sem conhecer a alegria de doar e servir. Terão dificuldade a doar nem que seja um copo de água! Ficarão pobres, sem amor e sem fé.
Toda vitória sobre o egoísmo exige esforço, sacrifício: é a cruz – pede dedicação – aprender a doar algo de nós mesmos, da nossa vida, tempo e energias. Cresce com a humildade de saber dar atenção aos outros, de acolher um profeta, de se deixa incomodar pelos pequeninos. O amor sempre renovará e transformará as coisas e a vida: a água em vinho, as doenças em saúde, o egoísmo em generosidade e dedicação.

Dom Pedro José Conti
Diocese de Macapá/AP
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