sexta-feira, 8 de julho de 2011

Cidade de Deus x Cidade Terrestre


A trama e o drama da história humana sob a guia da providência de Deus no pensamento de Santo Agostinho.

Cidade de Deus. A monumental obra de Agostinho, desdobrada em vinte e dois livros, é uma profunda reflexão sobre a vida, a história, o sofrimento e o sentido da vida. O autor empregou treze anos para redigir tal obra que ele considerara imensa e árdua. Havia passado um século que os cristãos passaram a gozar da liberdade para cultuar o Deus revelado por Jesus Cristo e destronaram pouco a pouco o paganismo e seus deuses.
Agostinho faz uma reflexão mais atenta da história e não permite a si nem a outrem leituras superficiais. Com efeito, ele não se limita às convulsões sangrentas da invasão dos bárbaros. O horizonte se amplia para que se perceba o fio condutor da história universal. Os godos de Alarico, com seus cavalos vindos do norte, transformam a cidade eterna em uma fogueira cuja fumaça se inala em todo o império, gerando consternação e pasmo. Entretanto, tudo isso não passa de um minúsculo episódio da luta permanente, cujos combatentes são a Cidade de Deus e a Cidade Terrestre. “Para ele, tanto as civilizações como os Estados envelhecem e morrem. O importante é escrever de modo cristão nas linhas tortas da história humana” (HAMANN, 1989, pp. 288-289).
Com efeito, aos conflitos internos, eram adicionados os acontecimentos da Itália e de Roma, que se refletiam sobre a cidade. Os cristãos viviam uma perplexidade desconcertante oriunda das recriminações dos pagãos, e isto, não poucas vezes, era-lhes mais penoso para enfrentar que a própria ruína da sede do império. Com oportuna sensatez, a contra-argumentação não se faz esperar: “Abri as portas de todas as guerras, quer anteriores à fundação de Roma, quer posteriores a seu nascimento e à organização de seu império, lede-as e mostrai-nos estrangeiros, inimigos, senhores de cidades conquistadas, que tenham poupado aqueles que sabiam estar refugiados nos templos de suas divindades, mostrai-nos algum chefe bárbaro que, em cidade por ele forçada, haja ordenado se poupasse toda pessoa surpreendida neste ou naquele templo” (AGOSTINHO, 1989, p. 29).
Em novembro de 410, vive-se, no norte da África, o tempo da colheita das azeitonas. E Agostinho, a exemplo de Cristo, qual competente mistagogo[1], serve-se da vida cotidiana do povo para instruí-lo a respeito dos sublimes mistérios, entre os quais o mistério da cruz, eterna fonte de ressurreição. Segundo o doutor da graça e da providência de Deus, na história, benefícios e calamidades estão misturados. Colher os primeiros significa também colher as segundas. O mundo, então, assemelha-se à prensa em ação, em que as azeitonas colhidas e depois esmagadas se tornarão ou azeite dourado, preciosamente recolhido, ou bagaço que escorre para o esgoto. Os cristãos deverão estar atentos a essas lições (AGOSTINHO apud HAMANN, 1989).
Ante os dramas vividos e as perplexidades que enfraqueciam os corações mais débeis em busca de uma leitura de fé a respeito do desabamento das seguranças humanas, no que tange a tais escolhas, o bispo assim se expressa aos seus fiéis: “O mundo está transtornado como se estivesse numa prensa. Coragem, cristãos, sementes de eternidade, peregrinos neste mundo, a caminho do céu! As provações que se multiplicam são o destino dos tempos cristãos, mas não constituem um escândalo para o cristão. Se amas este mundo, blasfemarás contra Cristo. E é isso o que te sopra o teu amigo, o teu conselheiro. Mas, não deves escutá-lo. Se este mundo está sendo destruído, diz a ele que Cristo o previu” (AGOSTINHO, apud HAMANN, 1989, p. 274).
Ainda na condição de peregrinos, os cristãos não se devem considerar alheios ao que acontece na terra, haja vista que a cidade celeste não está apenas na bem-aventurança eterna. Cabe aos discípulos de Cristo lutar para que a Cidade de Deus cresça na terra, avançando sobre o terreno da Cidade Terrestre. Começa neste mundo e cabe-lhes construí-la sem seu primeiro estágio. “Com alicerces provisórios, o arquiteto do universo constrói a cidade permanente, em direção à qual nos pede que direcionemos nossos passos” (AGOSTINHO apud HAMANN, 1989, p. 308). Ademais, o incessante e luminoso objetivo do cristão, na terra, será o de guardar sua identidade de peregrino da Cidade de Deus. Algo de grande importância, em tal reflexão, é a linha divisória das duas cidades a qual é invisível, haja vista estar no coração de cada homem e mulher. “Se quiseres saber qual é a cidade e a que chefe obedeces, escruta teu coração e examina teu amor” (AGOSTINHO apud HAMANN, 1984, pp. 306-307).
Vem à baila, a partir dessa verificação interior, um drama que o coração agostiniano sofrerá penosa e ardorosamente: a divisão fragmentadora, a inquietude e o anseio por esta unidade interior, sofridamente perseguida, mas nem sempre obtida: “Nosso coração está dividido. Quem semeou esta guerra em mim?” (Ib.). Na sequência, a evocação do campo de batalha nos remete ainda outra vez para o coração humano: “A fronteira entre Cristo e o mal passa pelo interior de nós mesmos, entre nossa alma cristã e nossa alma pagã” (Ib.). Arrematando tal consideração, o bispo hiponense afirma a invisibilidade de tal fronteira: “É uma fronteira invisível para qualquer um além de Deus, que escruta os corações e as entranhas dos homens” (Ib.).
Esse filósofo cristão da história humana a interpreta à luz dos dois amores que se digladiam pelo coração humano a fim de levá-los a ser construtores de cidades, de alicerces, estruturas, consistências e finalidades antagônicas e opostas: “Dois amores, pois, duas cidades, a saber: o amor próprio levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Gloria-se a primeira em si mesma, e a segunda, em Deus, porque aquela busca a glória dos homens e esta tem por máxima glória a Deus, testemunha de sua consciência” (AGOSTINHO, 1990, p. 169).
Agostinho faz uma leitura esperançosa da história humana. Esta terá o seu ocaso com o Dia do Senhor, que será o dia oitavo, um domingo sem fim, consagrado à ressurreição de Cristo, em que se desdobrará o repouso eterno. Para isso, ocorre que o homem viva e cumpra sua essência, não mais na cupiditas, isto é, voltado para si e para as coisas do mundo. Há que viver a cháritas, voltado para Deus e amando as criaturas em função de Deus. Os bens finitos hão de ser usados como meios e não devem ser desfrutados ou cobiçados como se fossem fins (REALE-ANTISERI, 2007). A mística da Cidade de Deus o requer!


Pe. Antonio Marcos Chagas
Missionário da Comunidade Católica Shalom
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