segunda-feira, 23 de setembro de 2013

São Pio de Pietrelcina: o santo de todos os dias

Aproximar-se dos santos é uma aventura rica e apaixonante; nos sentimos atraídos a viver como eles e a sermos apaixonados por Deus como eles. Quem encontra um “tesouro ou uma pérola preciosa” vai, vende tudo o que tem para comprar este tesouro.
É interessante contemplar a vida dos santos. São pessoas iguais a nós, frágeis, fracas, cheias até de defeitos, mas que lutaram contra si mesmas para revestir-se de Cristo. Foram provados pelas “noites escuras”, foram visitados pela dor e sofrimento, perceberam como é duro em certos momentos carregar a cruz de Cristo, mas nunca desanimaram porque queriam ser como Jesus. Nada melhor para “reavivar em nós a chama do amor de Deus”. Sem os santos a Igreja correria o risco de se acomodar e de se tornar medíocre. Os santos nos acordam do nosso sono e tranqüilidade. Não há nenhum santo igual ao outro, como não há nenhuma folha de árvore igual a outra, nenhuma pétala… todos somos diferentes. Deus nos criou por amor e o amor não se repete nunca, é sempre novo, sempre fiel e criativo. Nada mais belo que parar e contemplar os santos, “amigos de Deus e nossos amigos”.
Frei Pio da Pietrelcina é um santo curioso, amável, cheio de vida, ternura, simplicidade. Possui um forte senso de humanidade e compreensão para com todos os que sofrem. Diríamos porém que é um “santo rude, de maneiras exigentes e às vezes até brutas, mas sempre para que as pessoas, caindo em si mesmas, possam voltar a Deus.”
Padre Pio, mistério de Deus
A vida do Frei Pio foi longa, difícil, mas cheia do amor de Deus e de aventuras humanas e divinas. Nasceu em 1887 e morreu em 1968, com 81anos, vividos com intensidade, todo ao serviço de Deus e dos irmãos. Descobriu a missão de ser apóstolo da misericórdia de Deus para os pecadores. Dedicava-se horas e horas ao apostolado do confessionário. Podemos destacar no Padre Pio um amor apaixonado pelos pecadores que encontravam nele uma palavra de ânimo, coragem e perdão, ou às vezes uma palavra dura e forte para que pudessem compreender os próprios erros e se converterem.
É interessante notar que em 1887, também na vida de outra grande santa, acontece algo de impressionante, a descoberta da sua vocação para se dedicar à salvação dos pecadores. Santa Teresinha tem 14 anos, está toda animada com a idéia de entrar no Carmelo aos 15. Será neste ano que realiza a sua visita a Roma e que pede ao Papa Leão XIII permissão para entrar no Carmelo. Mas o que é bonito é que ela descobre, lendo escondidamente o jornal “La Croix”, que o assassino Alessandro Pranzini está para ser condenado à guilhotina e Teresinha suplica ao Senhor por ele que, antes de morrer, dá sinais de conversão. Teresinha, cheia de alegria, contará mais tarde na História de uma Alma este fato… “Apesar da proibição de papai de lermos jornais, não pensava desobedecer lendo aspassagens que falavam de Pranzini. No dia seguinte à sua execução, cai-me às mãos o jornal La Croix. Abro-o apressada e o que vejo?… Ah! minhas lágrimas traíram minha emoção e fui obrigada a me esconder… Pranzini não se confessou, subiu ao cadafalso e preparava-se para colocar a cabeça no buraco lúgubre quando, numa inspiração repentina, virou-se, apanhou um Crucifixo que lhe apresentava o sacerdote e beijou por três vezes suas chagas sagradas!… Sua alma foi receber a sentença misericordiosa.” (MA 46f)
Padre Pio de Pietrelcina tinha a plena consciência de que era um “mistério” para os outros e para si mesmo. Viveu a santidade na simplicidade de sua vida. Os fenômenos extraordinários com que foi enriquecido por Deus, por exemplo, os estigmas, levitação, conhecimento das consciências, ou bilocação… tudo isto não comprova a sua santidade. De fato o que faz umsanto não são os fenômenos, mas sim a vivência heróica das virtudes teologais.
Padre Pio sempre se sentiu “humilhado” por ter recebido de Deus estes sinais extraordinários. Ele sempre quis que as pessoas agradecessema Jesus Cristo e não a ele. Nunca o humilde frade capuchinho serviu-se dos dons extraordinários de Deus para fazer “propaganda de si mesmo”. Fugia com todos os meios de todas as pessoas que queriam ver suas “chagas”. Esta atitude é muito importante para a nossa vida de cada dia. Uma lição sublime que podemos aprender.
Não precisamos colocar em evidência os nossos dons, o Senhor se encarrega disto. Não necessitamos que os outros nos promovam, será sempre o Espírito Santo que vai agindo em nós. A exemplo de Jesus quando o queriam fazer rei porque tinha multiplicado os pães, Ele fugiu, escondeu-se, subiu ao monte para rezar… assim não precisamos de autoprojeção no bem que fazemos. O Senhor deve nos usar como bem lhe agrada.
Padre Pio de Pietrelcina não dava nenhuma importância aos fenômenos grandiosos que ele tinha, aliás, estes mesmos fenômenos eram para ele um peso, uma cruz quase insuportável.
Sentia-se mistério para si mesmo e não compreendia por que Deus o tinha escolhido para tão grande missão. Quando foi impedido de celebrar com o povo a Eucaristia e de atender às confissões confidenciou com alguém mais próximo: “Tirar o ministério do altar e das confissões a um sacerdote significa matá-lo!” Ao mesmo tempo que ele sentia sobre si todo o peso da graça de Deus também não era compreendido pelos outros. Nem pelos seus confrades que o viam no início como um impostor; nem pelas autoridades religiosas. Roma o considerava um elemento perigoso. E nem pelos livres pensadores ateus que viam nele somente um enganador do povo.
Mas então quem compreendia o Padre Pio? Deus que o amava imensamente até ao ponto de conceder-lhe o sinal mais visível da paixão do seu Filho Unigênito. E o povo simples que vinha de longe enfrentando perigos e dificuldades para estar por breves minutos com “il santo frate” de San Giovanni Rotondo.
O demônio, inimigo dos santos
Seria de estranhar que o demônio, inimigo declarado de Deus e de todo o bem fosse amigo do Padre Pio de Pietrelcina. São João da Cruz, que entendia bem de Deus e do demônio, nos recorda que o demônio não suporta os santos e os persegue declaradamente e com todos os meios.
Quando lemos a vida de Padre Pio permanecemos intrigados de como o demônio pode lutar tanto contra este frade humilde, pobre e simples. Mas na verdade, toda a preocupação do santo capuchinho era lutar contra o mal e salvar almas. Como pode o mal estar tranqüilo diante de tudo isto? Não somente eram tentações que poderíamos chamar “normais”, de qualquer pessoa que luta para ser santo, mas investidas físicas, lutas corporais. O demônio acordava o Padre Pio no meio da noite e batia nele até deixá-lo meio morto. São fatos que têm suas explicações os que têm fé e nunca para os incrédulos.
Mas o que provavelmente mais fez sofrer a São Pio de Pietrelcina não foram os ataques diretos do demônio mas sim uma rede de mal que se criou ao seu redor, vestida de bem, de luz e de defesa da verdade. Ainda vale a pena recordar o que diz João da Cruz: o demônio sabe se “vestir em anjo de luz” para enganar melhor aos outros.
Padre Pio porém, animado e fortalecido pela graça de Deus aceitou toda esta terrível noite escura com serenidade, amor, generosidade e plena e total obediência à Igreja que, para ele, lhe transmitia a vontade de Deus. Padre Pio será sempre para todos o exemplo de uma fidelidade única à Igreja.
Padre Pio: contador de piadas
Somos acostumados a ver os santos sempre de óculos escuros, sérios e pouco sorridentes. Isso é um grande erro. Deus é feliz e é sempre sorriso e alegria para os seus filhos. E como é edificante encontrar pessoas que nós consideramos santas e que ao mesmo tempo são cheias de alegria e sabem viver a vida na sua normalidade. Afinal, dizia um santo Padre do deserto, também os santos comem e bebem, dormem e choram, e riem como todos os outros. Padre Pio gostava de contar piadas e alegrar os seus frades com anedotas que sabia contar com um espírito todo particular no seu dialeto. Há até uma coleção de piadas do Padre Pio.
Dizem que uma vez Padre Pio estava na horta do convento passeando com os demais frades. Todos falavam sobre tudo. A um certo momento Padre Pio diz: “Vocês sabem como se chama o diabo?”
Cada um deu uma resposta: Belzebu, satanás, demônio… lúcifer…
E o Padre Pio, com serenidade diz: “Não, não!”
E então, como se chama, Padre Pio, o diabo?
E o padre, com muita perspicácia diz: “Quando dizemos: Eu, eu faço, eu digo, eu posso, eu alcanço, eu conquisto… eu, eu e eu… Isto é overdadeiro diabo.”
São Pio, modelo para todos
São Pio de Pietrelcina é modelo para todos nós. Modelo de quê? Antes de mais nada de docilidade em acolher das mãos de Deus tudo o que Ele nos envia. É necessário acolher das mãos de Deus tudo porque Ele e somente Ele sabe o que nos convém para a nossa santidade. Às vezes o Senhor concede dons que criam “dificuldades” para os que os têm porque, colocando-os ao serviço dos outros, provocam inveja, ciúme, incompreensões, divisões… Mas o amigo de Deus, sendo verdadeiro profeta, não pode trair nem a si mesmo nem a Deus e nem aos outros.
Padre Pio se faz para nós modelo de simplicidade. Deus, para realizar a grande obra que queria realizar na sua Igreja para o benefício dos sofredores, não foi buscar nem poderosos nem doutos mas gente pobre e humilde. O grande complexo que Padre Pio criou chamado “Casa Alívio do Sofrimento” foi e é fruto de doações anônimas de milhões de pessoas. Deus sempre age assim. Os pequenos não precisam de “pedestal” para se fazerem conhecidos, é Deus quem se revela neles.
Padre Pio é para todos modelo de amor à cruz, ele a carregou com amor, generosidade e sempre com o sorriso nos lábios. E é também modelo de profeta. Soube dizer não a todos quando foi necessário, sem medo. Por isso os nossos “sims” a Deus que muitas vezes nos fazem atravessar desertos e solidões duras, trazem ao nosso coração uma grande alegria, a alegria de fazer a vontadede Deus.
Os fenômenos místicos do Padre Pio de Pietrelcina não são o mais importante, eles não são necessários para a santidade. Fixemos antes onosso olhar neste pobre e humilde servo de Jesus e imitador de São Francisco de Assis.
Frei Patrício Sciadini, ocd
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