segunda-feira, 30 de maio de 2011

Bíblia, Espelho de Deus

A Bíblia é a história de um povo com o seu Deus; não de qualquer povo, mas do povo de Deus, escolhido por Ele, para ser exemplo para todos os povos. Israel representa a humanidade caminhando com Deus. Nas suas andanças e desandanças, espelham-se os tropeços da humanidade confrontada com Deus. 

Nós somos o povo de Deus, portanto, não podemos ler a Bíblia apenas como devoção individual. Porque somos povo, somos indubitavelmente solidários com os ricos e com os pobres, com os justos e com os pecadores. Andamos todos misturados, carregando o nosso peso e o dos outros; como também os outros carregam o peso deles e o nosso. Completamente misturado: é assim que anda o povo de Deus (cf. Ex 12,38). 

Deus é pastor das ovelhas e dos cabritos. Mas, constantemente, o rebanho se recusa a seguir o seu pastor. O povo murmura e se revolta; quer pão, água, carne. E nós somos este povo de Deus; Deus conosco e nós, rebanho, andando e desandando, nos atrapalhando mutuamente e nos ajudando pela presença dos outros, empurrando e empurrados, aos balidos. 

Na frente vai o nosso pastor, levando o rebanho rebelde. Mas o pastor também se cansa desta rebeldia constante, “desanima, se zanga e entrega o rebanho aos lobos”, que rasgam ovelhas e cordeiros. A Bíblia não é só narração idílica e pastoril. É também anúncio severíssimo dos profetas, denunciando ao povo os seus pecados e a sua infidelidade e anunciando os piores castigos: destruição completa de Samaria, o Israel do Norte, em 721 a.C.; destruição de Jerusalém e do Templo, em 587 a.C., com o exílio, longe da Terra Prometida. Depois da morte de Jesus, no ano 70 d.C., nova destruição de Jerusalém e do Templo pelos romanos. 

Quando nos propomos a ler a Bíblia, é comum nos dedicarmos aos trechos mais “consoladores”, que falam da ternura de Deus, de seu amor pelo povo... Mas podemos ler e refletir somente aquilo de que gostamos e deixar de lado aqueles outros trechos mais severos? Será que ainda é a Palavra de Deus, ou uma antologia piedosa, adoçada, temperada para o nosso gosto e consolo? 

Será que temos o direito de ler e meditar somente aquilo que nos agrada e assim retirar da Palavra de Deus sua mensagem essencial, fabricando um ídolo para nosso uso particular e, amiúde, individualista: “Meus problemas, minhas enfermidades, minha família...” Será que não estamos, dessa forma, esvaziando a Palavra de Deus, que proclama a salvação para a humanidade inteira, reduzindo-a a um remédio caseiro para o nosso egoísmo e egocentrismo? Enquanto isso, o mundo inteiro morre e se destrói por falta de conhecimento da Palavra que o pode salvar, e que nós edulcoramos para o nosso “uso tranqüilizante”. 

Acredito que temos uma obrigação gravíssima de ler e procurar entender a Bíblia inteira – consoladora e severa – para descobrir o plano de Deus para nós e para a humanidade. Não temos o direito de manter essa Palavra cativa, para nosso uso pessoal. Palavra que pertence à humanidade inteira, e da qual somos os depositários, os responsáveis, mas não os proprietários. 

Portanto, impõe-se-nos a necessidade urgente de uma leitura adulta e responsável da Palavra de Deus total, de A a Z, do Gênesis ao Apocalipse, para perceber e entender o que Deus está hoje gritando para nós e, por nós, à humanidade desvairada. Se alguém está se afogando no rio e deixamos de gritar para pedir socorro, será que não temos responsabilidade pela sua morte? O mundo está se afogando e temos em nossas mãos o remédio, o único remédio que o pode salvar eternamente. Será que temos o direito de adocicar esta mensagem, fazendo dela um “chá de erva-doce” para o nosso uso individualista e egoísta, enquanto o mundo se afoga? 

É por este motivo que insistimos sempre sobre uma leitura da Bíblia inteira, uma leitura adulta, que procure perceber e entender o plano de Deus para a humanidade, para sermos conscientes nesta caminhada, e para que a Bíblia se torne realmente luz para a nossa vida e para a vida dos nossos irmãos. 

Pe. Caetano Minette de Tilesse 
Fundador da Comunidade Nova Jerusalém
Postar um comentário