quinta-feira, 14 de abril de 2011

Jejum não é regime!

Continuando as nossas simples reflexões nesta quaresma, talvez seja interessante responder a essa pergunta, visto que muitos, ou a maioria, por um motivo ou outro, fazem, ou fazemos regime. Os médicos alertam e nós, não somente de uma certa idade, mas, às vezes, até os mais novos, precisamos tomar cuidado. Já sabemos. Isto faz bem, isto faz mal etc. Daí a pergunta: regime é jejum? A resposta imediata é não, mas poderia sê-lo. Vamos ver. Regime não é jejum pela simples razão de que o controle da alimentação por obrigação – médica ou para emagrecer – não é uma escolha livre: se pudéssemos...nós comeríamos. Porém o médico proibiu ou estamos com medo de ficar obesos... 

A segunda razão acompanha a primeira; é a própria finalidade do jejum. Não se jejua para emagrecer ou para obedecer ao médico, mas para aprender a controlar a nossa gula ou as nossas falsas necessidades, como vícios, maus costumes etc. O jejum verdadeiro tem como finalidade nos libertar de certas necessidades que nós mesmos criamos nos acostumando a comer ou beber (ou fumar) certas coisas, de tal forma, que não conseguimos renunciar. O costume virou necessidade. Tornou-se vício, dependência ou quase. O jejum quer nos libertar de tudo isso. Podemos viver sem aquela bebida, aquela comida, aquele mau costume? Um pouco mais de disciplina, deveria nos permitir voltar ao controle das nossas ações e ao sentido de fazer ou não certas coisas. Por isso o jejum pode ser entendido num sentido bem amplo. 

Dentre as falsas necessidades, hoje, a televisão é um bom exemplo. A diversão, tornou-se obrigação. E assim pode ser alguns gestos ou maneira de agir, responder, olhar as pessoas. Sempre é tempo para mudar, mais ainda na Quaresma. Ter mais paciência, conversar com quem não gostamos, pode ser uma excelente penitência e um bom jejum do nosso orgulho. 

Mas voltemos à dieta. O jejum deve servir também para uma outra finalidade, a melhor de todas e, talvez por isso, a mais difícil: a solidariedade. Se renunciamos a uma comida ou a uma bebida, não pode ser simplesmente para pouparmos ou nos disciplinarmos, mas para sermos solidários com aqueles que não têm tantas chances de escolher o cardápio da mesa: os pobres, os necessitados; e a aproximação a eles é o grande objetivo do jejum. Renunciamos a algo supérfluo para oferecer a nossa privação a quem não tem nem o necessário. Assim o jejum de disciplina, passa a ser caridade. Com isso, eu acredito que, a esta altura, também um “regime” rigorosamente seguido por ordem médica ou por causa do nosso sobrepeso pode tornar-se caridade. Basta oferecer o sacrifício desse regime, aceitar com alegria a privação e oferecer o que poupamos aos mais necessitados. Como sempre, o que vale não é simplesmente a ação em si, mas também a intenção e o resultado final. Por isso, coragem, “regimistas” do mundo inteiro, uni-vos! Não para comprar mais produtos emagrecedores, e sim para alimentar os mais pobres, para doar mais remédios a quem não tem recursos, para ajudar a quem sofre. Poderão unir o útil ao bem. 

D. Pedro José Conti 
Bispo de Macapá (AM)
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