quinta-feira, 17 de março de 2011

Quarenta dias no deserto

    Com o rito das cinzas, na quarta feira passada, a Igreja abriu o tempo da Quaresma do ano litúrgico. É tempo de preparação para a Semana Santa, tempo de recolhimento, de reflexão, de oração sobre a morte e a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo.
    Começamos, nesse domingo, recordando os quarenta dias de Jesus no deserto, em recolhimento e colóquio com o Pai, antes de dar início à pregação do Reino. O recolhimento e a oração de Jesus inspiraram aos primeiros cristãos reviver e recordar a Paixão, a Morte e a Ressurreição do Senhor. Os cristãos, desde o começo, estavam decididos a colocar em prática o mandamento que o Senhor tinha dado aos apóstolos. Jesus na última Ceia, depois de ter distribuído o pão e o vinho, convertidos no seu corpo e sangue, disse: “Fazei isto em memória de mim”. Era o partir o pão, a Eucaristia, a Missa.
    Os hebreus faziam cair a sua festa semanal no sábado, mas Jesus ressuscitou no dia seguinte, e os cristãos fizeram festa no dia seguinte que chamaram o dia do Senhor, em latim Dominica Dies, domingo. No domingo começaram a reunir-se, para cumprir o mandamento do Senhor, celebrar a Eucaristia. Para os hebreus, naquele ano a sua Páscoa caiu no sábado e assim com maior solenidade, comemoravam então a sua passagem da escravidão do Egito para a liberdade. Páscoa quer dizer passagem.
    Também os cristãos passaram a considerar a Páscoa a sua festa máxima no seguimento de Jesus. Ele morreu e ressuscitou nos dias da Páscoa judaica. A Páscoa cristã significa também passagem: passagem de Jesus da morte para a vida. Naquele dia Jesus venceu a morte, libertando o homem do pecado e do mal. Bom motivo para celebrar festivamente.
    Os primeiros cristãos passaram a comemorar aqueles acontecimentos centrais para a fé, com a Semana Santa. Deviam preparar-se de modo adequado: refletir, meditar, rezar. Para compreender Jesus profundamente é preciso tempo. Jesus deu o exemplo.
    Depois do batismo recebido de João Batista para preparar-se para a sua missão, Jesus se retirou no deserto para rezar durante quarenta dias. Assim diz o evangelho de Marcos 1, 12-15: “O Espírito levou Jesus ao deserto e aí permaneceu quarenta dias”, para preparar-se em colóquio com o Pai celeste.
    Os primeiros cristãos acreditaram que também eles tinham necessidade de tomar para si, cada ano, quarenta dias, para meditar sobre o mistério de Jesus morto e ressuscitado. Assim nasceu a Quaresma. Quaresma, em latim Quadragésima, significa quadragésimo dia. De quarta feira de cinzas até começar a Semana Santa são quarenta dias.
    O que fazer nesse tempo? Os evangelistas nos apresentam Jesus como pessoa reflexiva que amava o recolhimento, a meditação, a oração. Seguindo o seu exemplo somos convidados a criar também para nós este clima de seriedade e de empenho.
    Ser capazes de algumas vezes desligar o rádio e o televisor em nossa casa. Tomar em mãos um bom livro, abrir o Evangelho: ler, refletir, pensar em nossa vida, em nossos projetos, o que estamos preparando. Pensar nos que nos são caros, no significado de nossa presença em seu meio. Enfim no que pensamos fazer sob o olhar do Senhor.
    Quaresma é tempo de reflexão, porque o cristão é alguém que pensa. É preciso aprofundar, compreender: uma frase, por exemplo, do evangelho de hoje. Jesus depois de quarenta dias voltou para o meio da gente e começou a pregar: “O tempo chegou, o reino de Deus está próximo, convertei-vos e crede no Evangelho”. São palavras sérias e comprometedoras.
    Convertei-vos, do grego metanoeite, significa mudar a mentalidade, o modo de pensar. Que se torne menos nosso e mais segundo Jesus.
    Crer no evangelho. Somos tentados a responder: nós já cremos no Evangelho! Todavia nos resta ainda muito para compreender. Também para nós sacerdotes. Compreender não é tudo, devemos nos tornar coerentes, isto é, viver o Evangelho.
    Ocorre pensar e pedir essas coisas. É hora de recolher-se em oração, fazer deserto. Aprender de Jesus, que se retirava de bom grado nos lugares solitários. Um pouco de escuta, de reflexão, de troca de idéias. Depois a volta à vida de todos os dias. Eis a surpresa: tornou-se diverso. Mudou-se por dentro.
    A exemplo de Jesus, fazer jejum e viver intensamente a caridade.
Cardeal Geraldo Majella Agnelo
CNBB
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