Ano novo: tempo de graça, memória e decisão
Vamos lá, resolvi juntar alguns esboços de pensamentos para o ano que estava iniciando, aliás já iniciou. Talvez o celular não ajude na formatação do texto, no entanto, isso é o de menos.
O ano novo chega sempre silencioso, ainda que o mundo faça barulho. Fogos estouram, promessas se acumulam, agendas se abrem. Mas, no fundo, o que realmente muda não é o calendário - é o coração que decide como atravessar o tempo que lhe é dado.
A tradição cristã nunca viu o tempo como algo neutro. Para nós, o tempo é kairós, ocasião de Deus. Cada ano que se inicia é mais um capítulo da história da salvação vivido no concreto da nossa vida. Não é apenas um ciclo que recomeça; é uma graça que se oferece de novo, por isso, o ano novo não apaga o passado
Existe uma tentação moderna muito forte: achar que o ano novo “zera tudo”. Não zera. E ainda bem.
A vida espiritual não se constrói com amnésia, mas com memória agradecida. O passado - com suas quedas e fidelidades - é matéria-prima da graça. Como ensinava São Francisco de Sales, Deus sabe tirar proveito até das nossas faltas quando elas nos tornam mais humildes e mais confiantes n’Ele.
Não entramos no ano novo como quem foge, mas como quem aprendeu. Quem ignora o próprio passado está condenado a repeti-lo; quem o oferece a Deus, permite que Ele o transfigure.
“Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).
Recordemos que o futuro não é promessa vazia. O futuro, por sua vez, não é uma folha em branco absoluta. Ele é promessa, sim, mas promessa que exige cooperação. Deus respeita o nosso passo. Ele não invade, convida.
Por isso, menos listas de metas e mais decisões interiores. Menos ansiedade por resultados e mais fidelidade ao dever de cada dia. A tradição espiritual sempre desconfiou das resoluções grandiosas demais e vazias de constância.
Santa Teresa de Jesus dizia que Deus não olha tanto para o tamanho das obras, mas para o amor com que são feitas. Um ano vivido com simplicidade, oração e perseverança vale mais do que mil projetos nunca encarnados.
Iniciemos este ano novo começando de joelhos.
Há algo profundamente sábio na tradição da Igreja: o ano civil começou sob o olhar de Maria, Mãe de Deus (1º de janeiro). Isso não é detalhe litúrgico - é pedagogia espiritual.
Maria nos ensina a entrar no tempo com escuta, não com pressa; com disponibilidade, não com controle. Ela não fez planos grandiosos. Fez-se serva. E isso mudou a história.
Começar o ano ajoelhado é reconhecer uma verdade simples e libertadora: nós não somos donos do tempo. Somos administradores de um dom.
Por esse motivo, vivamos o novo ano como caminho, não como corrida.
O ano novo não pede pressa, pede direção. A pressa é filha do medo; a direção nasce do sentido.
Talvez o mais honesto neste início seja perguntar:
>O que precisa ser purificado?
>O que precisa ser perseverado?
>O que precisa, simplesmente, ser aceito?
A santidade não acontece aos saltos, mas no passo firme de quem caminha com Deus no ordinário da vida. Como ensina a tradição carmelitana, a união com Deus amadurece no silêncio fiel, não no espetáculo.
Por fim, um ano entregue, não controlado!
Entrar no ano novo é fazer um ato de abandono confiante. Não sabemos o que virá. Sabemos, sim, com Quem caminhamos.
Que este novo ano não seja apenas mais um número, mas um espaço real de conversão, amadurecimento e fidelidade. Que seja vivido com verdade, sem ilusões, mas cheio de esperança.
Porque, no fim, não seremos julgados pelo que planejamos, mas pelo quanto amamos no tempo que nos foi dado.
Feliz ano novo - vivido com alma, com Deus e com coragem.
Em Jesus, Maria e José,
Diego Tales
8 de janeiro de 2026
Depois da Epifania do Senhor
Comentários